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Diálogos de uma realidade implausível em mundos alegóricos possíveis

Diálogos de uma realidade implausível em mundos alegóricos possíveis

Paperback

General Fiction

ISBN13: 9798737599904
Publisher: Independently Published
Published: Apr 21 2021
Pages: 208
Weight: 0.54
Height: 0.44 Width: 5.50 Depth: 8.50
Language: Portuguese
Já em seu magnífico romance de estreia, Jangadas, lançado em 2016, o talento de Marcio Noal para o diálogo, especialmente o que poderíamos chamar de cômico-erudito, já havia ficado evidente. É raro encontrar na literatura brasileira, mesmo na melhor, alguém que domine essa arte como ele. Isso torna sua mais nova empreitada literária - Diálogos de uma realidade implausível em mundos alegóricos possíveis - um presente para todos. O livro é composto por 26 diálogos, alguns dos quais são precedidos por uma breve introdução de não mais uma página.A graça desses pequenos textos está na destruição das barreiras que confinam os seres em seu próprio tempo e espaço, o que permite que todas as combinações de pessoas e histórias sejam exploradas e os limites do possível sejam alargados até abarcar o insólito e o inimaginável. Personagens do transcendente e do imanente, do presente e do passado, da realidade e da ficção interagem em todo tipo de situações cômicas, num intertexto permanente com diversos luminares da cultura universal. Teorias filosóficas sofisticadas e citações literárias de clássicos aparecem lado a lado com ditos, mitos e crendices da cultura popular; eventos históricos internacionais se misturam a ninharias políticas de nossas terras tupiniquins - no cadinho de Noal, tudo se mistura com tudo, como se as leis da natureza tivessem sido suspensas em prol da sua arte.No diálogo que abre o volume, por exemplo, Deus - o próprio - confabula com o Id, o Ego e o Superego antes que essas três instâncias formadoras da psique humana fossem alojadas no corpo de Adão e Eva, que Deus cria por não suportar a solidão. Mais à frente, Hitler, Mussolini, Napoleão Bonaparte, Dostoievski e Tiradentes discutem seus planos para mudar o mundo enquanto jogam uma animada partida de poker. Em outro diálogo, Marx e Lafargue discutem o direito à preguiça defendido por este último, enquanto na sequência os heterônimos de Fernando Pessoa debatem sobre qual deles é o mais querido pelo poeta lusitano que os criou. E enquanto tudo isso se passa, dá-lhe referências à situação política do país, ao impeachment de Dilma, às negociatas de Temer para se proteger das acusações de corrupção, à ascensão do fascismo bolsonarista...O leitor vai se escangalhar de rir com muitos dos diálogos do livro, mas isso não deve fazê-lo perder de vista o que há desolação e ceticismo nessas histórias. A técnica do autor de mostrar atores e autores da história, da filosofia, da literatura e da ciência em situações comezinhas do dia a dia, de fazê-los discutir de forma descompromissada, quase leviana, como se estivessem numa mesa de botequim, teorias e ideologias pelas quais milhões de pessoas deram a própria vida ou tiraram a do próximo, parece indicar que os grandes acontecimentos da história não passam para ele de barulho e fumaça, e as ideias dos grandes luminares do pensamento nada mais do que vento estocado. A ideia de fundo é que, no fim das contas, não existe solução para o mundo enquanto o ser humano for o que é. E dado que ele não vai mudar, só nos resta rir dele e de suas realizações. Rodrigo César Dias

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